Acto de resistência<br> e exemplo de coragem
No dia em que passaram 70 anos desde a madrugada de 8 de Setembro de 1936, o Partido inaugurou, no centro de trabalho da Rua Soeiro Pereira Gomes, uma exposição sobre a Revolta dos Marinheiros, as circunstâncias em que esta ocorreu, o lugar que ganhou na história do nosso país e o significado que continua a ter, nos dias de hoje.
Dossier A REVOLTA DOS MARINHEIROS A revolta mostrou que havia quem resistisse ao fascismo, mesmo no interior das Forças Armadas e assumindo carácter insurreccional
No acto, que contou com a presença do secretário-geral, Jerónimo de Sousa, e de dois camaradas que participaram na sublevação e que o fascismo reprimiu severamente, enviando-os para o «campo da morte lenta», interveio José Casanova, da Comissão Política do PCP e director do Avante!, que considerou a revolta como «um acto de resistência ao fascismo, que ficará impressivamente assinalado na história da luta do povo português e dos comunistas portugueses contra o regime brutal que durante quase meio século mergulhou o nosso País na opressão e no terror». Por outro lado, salientou, «o exemplo de coragem e de dignidade dos valentes marinheiros da ORA permanece para nós, comunistas de hoje, como uma referência maior para a luta que continuamos e que as gerações que nos sucederem continuarão».
Logo depois de derrotada a insurreição, mal se tinham calado os canhões no Alto do Duque e no Forte de Almada, o regime fascista desencadeou uma série de operações, para tentar calar o impacto dos acontecimentos de 8 de Setembro de 1936, para deturpar os objectivos dos marinheiros revoltosos e para, sobretudo, intimidar e reprimir todos os que resistiam à consolidação da ditadura.
Apesar da derrota, «não foi em vão a acção dos marinheiros de 1936», pois «ela mostrou que, ao contrário do que proclamava o então presidente do Conselho, havia quem resistisse ao fascismo; que, ao contrário do que proclamava o então ministro da Guerra, a resistência antifascista se fazia no interior das próprias forças armadas, assumindo, mesmo, um carácter insurrecional; que uma derrota só o é totalmente se não sabemos tirar dela os ensinamentos adequados», disse José Casanova, na intervenção que publicamos nas páginas seguintes.
Remetendo à «luta que hoje travamos contra a política de direita e por uma política que sirva os interesses dos trabalhadores, do povo e do País», o dirigente comunista recordou que, «se nos limitássemos a ir por diante apenas com as lutas previsivelmente vitoriosas, condenar-nos-íamos a não ganhar nenhuma luta», e que, «se é verdade que muitas das lutas que travamos não se traduzem em vitórias, não é menos verdade que sem a luta nenhuma vitória seria alcançada».
Reuniram-se, no átrio da sede central do PCP, várias dezenas de camaradas, entre os quais se encontravam diversos membros de organismos executivos do Partido e da JCP, bem como antigos dirigentes, que tiveram intensa e abnegada actividade na luta contra o fascismo e na construção da democracia em Portugal ou que (como Sérgio Vilarigues, membro do Secretariado do Partido durante vários anos) sofreram com os marinheiros revoltosos as sevícias do Tarrafal.
Alvo de especial atenção e carinho foram os camaradas Joaquim Teixeira e José Barata, que há 70 anos eram jovens marinheiros, imbuídos de impulsos antifascistas e envolvidos nas actividades da Organização Revolucionária da Armada, activos participantes na revolta que, como um deles salientava aos jornalistas, foi feita apenas por praças rasos, «o mais graduado era um camarada que estava quase a ser promovido a cabo». Tal como outros insurrectos, foram detidos, julgados e condenados a severas penas, cumpridas no campo de concentração do Tarrafal, desde a sua abertura e até ao seu encerramento. Viveram com o Partido a alegria do 25 de Abril e continuam, com as limitações que a idade avançada não consegue impor ao espírito inquieto e combativo, a acompanhar as lutas de hoje, por um País onde todos possam viver melhor, por um amanhã sem explorados nem exploradores.
José Barata
Satisfeito e contrariado
«Hoje, sinto-me satisfeito, por ter havido o 25 de Abril, que nos permite estarmos aqui a falar em liberdade e por tudo o mais que mudou em Portugal. E sinto-me contrariado, porque o 25 de Abril proposto não existe, hoje não é um período de alegria, justiça, liberdade. Isto foi o que fizeram políticos que tinham e têm palavras muito bonitas, mas que não fazem o que prometem às pessoas que os põem lá no poder.
Há que dar um rumo novo às coisas. Dizia o poeta que «o sonho comanda a vida». Eu tenho 90 anos e o sonho que me comanda a vida continua a ser o mesmo: vida melhor, bem estar e felicidade, mas para todos.»
Joaquim Teixeira
«E quem são os historiadores?»
Muito comovido, após o prolongado aplauso que interrompeu a parte final da intervenção de José Casanova, quando este referiu a presença dos dois marinheiros tarrafalistas, Joaquim Teixeira só ao fim de alguns minutos conseguiu recordar, para os jornalistas, episódios do seu dia 8 de Setembro de 1936. Contou, por exemplo, como, ao aperceber-se de que estavam a ser bombardeados e não conseguiam sair a barra do Tejo, decidiu deitar-se à água, para tentar nadar até à Margem Sul, «onde eu sabia que havia apoio», mas «fui caçado a meio do caminho por uma vedeta». Quando lhe perguntam por que acha que se fala pouco desta revolta, na história de Portugal, ele responde com outra interrogação: «E os historiadores, quem são?».
Logo depois de derrotada a insurreição, mal se tinham calado os canhões no Alto do Duque e no Forte de Almada, o regime fascista desencadeou uma série de operações, para tentar calar o impacto dos acontecimentos de 8 de Setembro de 1936, para deturpar os objectivos dos marinheiros revoltosos e para, sobretudo, intimidar e reprimir todos os que resistiam à consolidação da ditadura.
Apesar da derrota, «não foi em vão a acção dos marinheiros de 1936», pois «ela mostrou que, ao contrário do que proclamava o então presidente do Conselho, havia quem resistisse ao fascismo; que, ao contrário do que proclamava o então ministro da Guerra, a resistência antifascista se fazia no interior das próprias forças armadas, assumindo, mesmo, um carácter insurrecional; que uma derrota só o é totalmente se não sabemos tirar dela os ensinamentos adequados», disse José Casanova, na intervenção que publicamos nas páginas seguintes.
Remetendo à «luta que hoje travamos contra a política de direita e por uma política que sirva os interesses dos trabalhadores, do povo e do País», o dirigente comunista recordou que, «se nos limitássemos a ir por diante apenas com as lutas previsivelmente vitoriosas, condenar-nos-íamos a não ganhar nenhuma luta», e que, «se é verdade que muitas das lutas que travamos não se traduzem em vitórias, não é menos verdade que sem a luta nenhuma vitória seria alcançada».
Reuniram-se, no átrio da sede central do PCP, várias dezenas de camaradas, entre os quais se encontravam diversos membros de organismos executivos do Partido e da JCP, bem como antigos dirigentes, que tiveram intensa e abnegada actividade na luta contra o fascismo e na construção da democracia em Portugal ou que (como Sérgio Vilarigues, membro do Secretariado do Partido durante vários anos) sofreram com os marinheiros revoltosos as sevícias do Tarrafal.
Alvo de especial atenção e carinho foram os camaradas Joaquim Teixeira e José Barata, que há 70 anos eram jovens marinheiros, imbuídos de impulsos antifascistas e envolvidos nas actividades da Organização Revolucionária da Armada, activos participantes na revolta que, como um deles salientava aos jornalistas, foi feita apenas por praças rasos, «o mais graduado era um camarada que estava quase a ser promovido a cabo». Tal como outros insurrectos, foram detidos, julgados e condenados a severas penas, cumpridas no campo de concentração do Tarrafal, desde a sua abertura e até ao seu encerramento. Viveram com o Partido a alegria do 25 de Abril e continuam, com as limitações que a idade avançada não consegue impor ao espírito inquieto e combativo, a acompanhar as lutas de hoje, por um País onde todos possam viver melhor, por um amanhã sem explorados nem exploradores.
José Barata
Satisfeito e contrariado
«Hoje, sinto-me satisfeito, por ter havido o 25 de Abril, que nos permite estarmos aqui a falar em liberdade e por tudo o mais que mudou em Portugal. E sinto-me contrariado, porque o 25 de Abril proposto não existe, hoje não é um período de alegria, justiça, liberdade. Isto foi o que fizeram políticos que tinham e têm palavras muito bonitas, mas que não fazem o que prometem às pessoas que os põem lá no poder.
Há que dar um rumo novo às coisas. Dizia o poeta que «o sonho comanda a vida». Eu tenho 90 anos e o sonho que me comanda a vida continua a ser o mesmo: vida melhor, bem estar e felicidade, mas para todos.»
Joaquim Teixeira
«E quem são os historiadores?»
Muito comovido, após o prolongado aplauso que interrompeu a parte final da intervenção de José Casanova, quando este referiu a presença dos dois marinheiros tarrafalistas, Joaquim Teixeira só ao fim de alguns minutos conseguiu recordar, para os jornalistas, episódios do seu dia 8 de Setembro de 1936. Contou, por exemplo, como, ao aperceber-se de que estavam a ser bombardeados e não conseguiam sair a barra do Tejo, decidiu deitar-se à água, para tentar nadar até à Margem Sul, «onde eu sabia que havia apoio», mas «fui caçado a meio do caminho por uma vedeta». Quando lhe perguntam por que acha que se fala pouco desta revolta, na história de Portugal, ele responde com outra interrogação: «E os historiadores, quem são?».